A Escuta do Sintoma (e da Doença)
O sintoma e a doença são uma linguagem, uma forma inconsciente de expressão que,
se percebida, pode gerar transformações, conduzindo o indivíduo a um caminho mais saudável.
O cotidiano da clínica, obviamente, traz queixas, as quais apresentam-se de forma
física, orgânica e instalada (comprovada por exames)ou subjetivamente, a partir de uma
autopercepção e da observação clínica que apresentam aspectos não explicados a partir
de intervenções médicas e tradicionais.
Para alguns estudiosos, tanto os sintomas quanto as doenças, são "aprendidas" ainda
na infância, devido à dinâmica familiar e modelos que o indivíduo teve em fases anteriores.
A doença aparece como a representação de uma criança que busca alguem que a acolha,
isto é, um momento em que a "criança menor" que vive no indivíduo fala com ele mesmo,
gritando suas dores, expressando seus medos.
Observar o corpo, suas posturas, seus sintomas, suas doenças é observars seu
simbólico que, perceptivamente e conscientimente, pode ser reestabelecido, reorganizado
e reestruturado. Não que a percepção e conscientização impliquem obrigatoriamente a uma
mudança, mas apresentam a possibilidade de escolha e, assim, a responsabilidade que
temos sobre nossas próprias coisas.
Enquanto adulto independente somente o indivíduo pode ser responsável por sua vida.
Terapeuta, pais, filhos, amigos... Todos só podem caminhar junto, acompanhar e compartilhar;
seguem até um certo ponto e podem estar junto no momento da ação, mas fazer pelo outro, isto
não é possível. Com as crianças, um dos papéis principais do adulto, especialmente dos pais,
é auxiliá-la a reconhecer os limites para que se torne um adulto saudável. O limite é uma
condição para conseguir ter a liberdade, quando se reconhece um limite, se percebe a
possibilidade.
Neste contexto, ressaltamos, não existe certo ou errado, existe o que é melhor
para cada indivíduo, para cada história. Quantas vezes não nos aparecem queixas morais,
queixas culposas que da escuta do mundo precisam se diferenciar na sutileza da clínica
que num espaço-tempo-terapeutico não são julgadas. É um percursso que se cria e se caminha
partindo do conhecimento e que se desenvolve pelo amor e pelo afeto.
Não existem receitas, rótulos, apenas pontos iniciais. Cada parte, cada coisa
tem um significado único a cada indivíduo que, organizado pelo pensamento clínico nos
possibilitam criar e compor um pensamento, uma intervenção e uma escuta clínica para
cada história, para cada indivíduo.
Musicoterapeuticamente traduzimos os sintomas, as doenças, as sensações em som.
Sonoridades, timbres e canções... existentes, recriados e inventados para compor a
música que acompanha o filme ou a jornada da vida.
Ao mobilizarmos o sintoma ou a doença, temos a mobilização da expressão de nosso
inconsciente, se mobilizamos a energia (física e psíquica) empregada e estagnada,
liberamos uma energia que estava canalizada. Então é preciso intervir sobre esta energia
para que a mesma não seja somente redirecionada.
O diagnóstico e a patologia em si são tão importantes quanto a forma como a pessoa
lida com o sintoma ou a doença. O adoecimento pode apresentar-se lesando órgãos ou não, é
preciso uma escuta que investigue o sentido pessoal da vida, dos projetos e dos sonhos.
Perceber e estar neste fluxo envolve escutar do sonoro ao inaudível; se comunicando e se
expressando sonoramente e silenciosamente.
A expressão e a expressão espontânea passam por um aprendizado, muitas vezes não
sabemos explicar "o que" ou "como" sentimos; é uma pausa, um silêncio. As relações,
especialmente as primárias (pais), nos ajudam a organizar essas sensações. Se faltam
experiências ou se foram esquecidas pelo tempo ou pelo sentimento, podemos puxar pelo
registro sonoro (simbólico ou não)para experienciar algo próximo, semelhante e, assim,
reparar e aprender a dar voz ao que precisa ser dito.
Alegria, tristeza, raiva, felicidade, ódio, compaixão... Todos os sentimentos
e sensações podem ser sonorizados. Vivemos numa cultura que pouco se pode dizer sobre
sentimentos que, embora humanos, são considerados negativos e, portanto, "errados".
Muitas vezes o sentir não é identificado pela impossibilidade de ser vivenciado. Ao tocar
um instrumento musical, sentimos de outra forma porque experienciamos num outro
campo onde é possível ser o que se sente.
Se nos escutamos, podemos nos perceber e se nos percebemos, sentimos e, assim,
nos apropriamos daquilo que somos!
* Gisele Célia Furusava (APEMESP 154), Musicoterapeuta, Psicoterapeuta Corporal Neo-Reichiana, Extensão em
Psicossomática e Psicooncologia. Docente do curso de Graduação em Musicoterapia da Faculdade Paulista de Artes,
Autora do Livro "Setting Musicoterápico: da caixa de música ao instrumento musical" (Ed. Apontamenos, 2003).
Presidente da Apemesp (Associação de Profissionais e EStudantes de Musicoterapia do Estado de São Paulo) durante
a Gestão 2004/06. Artigo publicado em 15 de setembro de 2009.